Suando em bicas, Baiano agarrou a calça, amarrotada aos seus pés, virou e revirou os bolsos à procura de qualquer papel que o ajudasse a encontrar a solução para drama que estava vivendo: uma carta, um bilhete, ou mesmo uma nota fiscal... mas, nada, os bolsos estavam vazios, e agora não tinha como recuar: já fizera o que tinha de fazer, e não havia ninguém para ajudá-lo; passou os olhos pelos cantos do aposento, quem sabe, alguma pista para que encontrasse a saída, pelo amor de Deus, preciso dar um jeito - nesses horas ninguém aparece para ajudar !- mas nadica de nada, nem um ruído no quarto ao lado, até gritou, pediu, implorou, mas era sábado, e todos tinham saído. Desistiu. Espere! Só se... não... mas...Não tinha escolha, só restava a camiseta, e que ele queria preservar porque tinha o emblema do timão (mesmo estando há 18 anos sem ganhar o Campeonato Paulista, o seu Curintcha ainda era a paixão número um), mas ia ser ela mesma. Olhando meio sem graça para os lados, pegou a querida camiseta e, fazer o que? Limpou a sujeira como pode, enrolou o pano para não ver o resultado, levantou-se , puxou a cordinha da descarga e foi para o outro cômodo. Jurou por todos os santos da Bahia - apesar de ser pernambucano - que nunca, mas NUNCA MAIS ia sentar numa privada para cagar, sem olhar prá ver se tinha papel higiênico no suporte improvisado que pendia da parede.
O alojamento era simples, como todos usados pelos operários do Metrô: um cômodo com beliches, o banheiro - que ele acabara de usar e que agora empesteava o ambiente com o que restara do sarapatel e da buchada devorados ontem à saída do trabalho - e um quartinho que servia de depósito de material, roupas e de cozinha improvisada.
Baiano sentou no beliche. Sentiu que as mãos ainda tremiam, em parte pelo desgaste das contrações espasmódicas e agudas que o precipitaram ao vaso sanitário sem dar tempo de - maldita urgência - conferir de tinha papel higiênico, e em parte pela ansiedade em abrir aquela caixa que tinha achado no túnel do Metrô.
Foi até a porta, como quem não quer nada, empurrou a lâmina de madeirit, que , resmungando e rangendo, deu entrada à luz do sol e ao ar mais puro que vinha daquele canto do canteiro de obras. Saiu e correu os olhos por todos os lados.
- Lindjo! - pensou com seu sotaque pernambucano que lhe rendera o apelido de Baiano, mas fazer o que, tem importância não.
Ele não se cansava de admirar a obra. Os oito meses como servente das obras do Metro de São Paulo ainda não tinham apagado de seus olhos o brilho da primeira vez que tinha visto a Cidade. Meu Deus, quantxa gente, e que prédios!...
Sum Paulo era a Meca, a salvação, tinha trabalho que não acabava mais, todos os parentes machos já tinham vindo e estavam empregados na construção civil, mandando dinheirinho certo todos os meses para as famílias que ficaram no sertão pernambucano onde ele tinha morado.
Baiano acendeu um cigarro, olhou pro céu:
- A essa hora, na minha terra, tá todo mundo na feira, que delícia, escutar os cantadores de improviso, sentir o cheiro do fumo de rolo, beliscar uma carne de sol - epa, isso hoje não, dá até nojo de lembrar!
Há quase um ano tinha decidido vir pro Sul, tinha seu primo Cirino que escrevia todas as semanas, dava a maior força. No final de 1971, criou coragem e tomou o Viação São Geraldo e desembarcou na Rodoviária.
Sentiu os olhos marejarem ao lembrar... aqueles vidros coloridos, de todas as cores, aquele barulhão de ônibus, carros e gente, chegou a ficar tonto naquele dia. Graças a Deus o Cirino tava alí, bem na porta do ônibus, esperando. Não dava prá esquecer a sensação de mistério que São Paulo tinha - e tem - prá êle.
- Cirino, que é aquilo? Alí em cima?
- Nada não - e o primo fingindo que tudo era norrrrmal - é só um autdór de reclame.
- Mais é muitcho grande, cumo fizeram prá pintar ele lá em cima ? E essas mulher na calçada, com quase tudo de fora, que que é isso!?
- Mulher dama, primo. E desciam pela rua Santa Efigênia, subiam a Aurora prá pegar o ônibus até Santo Amaro, e Alcebíades (atualmente citado como Baiano) só abrindo a boca e pasmando:
- Quanto carro! Mas que povo apressado!... Meus Deus, aquele ônibus tá amarrado nos fios de força!
- É trólebus, Cibide, ônibus elétrico...
- Ô primo, o que é ...- o Baiano lia bem e rápido, mas o cartaz estava muito alto - o que é Sesquicente...nário?
- Ah, aquele autidór? É a festa tá tendo aqui em São Paulo, o Brasil vai fazer cento e cinqüenta anos de Independência! - pontificou Cirino, que não perdia um só Jornal Nacional.
- Cento e cinqüenta anos!? Puxa vida, só aqui em São Paulo mesmo...
Baiano soltou o cigarro e pisou na brasa descalço mesmo. Os anos de lavoura no chão seco fizeram um tipo de palmilha de coro nos seus pés, grossa e insensível. Prá usar a bota grossa de couro - exigência para que pudesse trabalhar no Metro - não foi fácil. Mas, fazer o que, já tinha se acostumado.
Seu trabalho era até fácil: sua turma ia nos túneis, depois daquela máquina enorme que chamavam de Tatuzão, recolhendo terra e colocando nos carrinhos. Os carrinhos cheios eram puxados para trás e outro vazio ocupava o lugar. Moleza! Era chato ficar o dia inteiro no túnel, saia só de duas em duas horas prá descansar e o sol doía nos olhos. Mas valia a pena, o salário saía em dia, com dois adiantamentos por mês, tinha o alojamento quase de graça e além de tudo, os amigos. Tudo gente do Nordeste, os assuntos eram os mesmos, e tinha a feira do Largo da Concórdia, com muita pitu e música de forró.
Mas hoje ele não ia prá feira, tinha inventado uma desculpa e ficou sozinho no alojamento. Não agüentava a vontade de abrir aquela caixa esquisita. E se fosse coisa de valor, uma espécie de tesouro?
Em relação aos seus colegas de trabalho, Baiano tinha uma formação escolar mais avançada, sabia ler, fazia contas rápido e entendia mesmo de alguns assuntos de política. Só não falava disso porque, você sabe, depois que morreu o Costa e Silva, entrou a tal Junta Militar e depois o presidente Médici , as coisas estavam meio estranhas. Tinha uma história de guerrilhas nos lados do Amazonas, e todo dia era preso um subversivo, parece que até o Caetano Veloso foi mandado embora do Brasil, sei lá. Era melhor ficar quieto, fazer o que.
O capataz da obra logo viu que Baiano era mais esperto, e deu a ele um serviço mais refinado: controlar os carrinhos de terra que o resto do pessoal enchia, dentro do túnel. Com uma planilha na mão, ele marcava direitinho cada viagem de terra. Sabia até fazer o cálculo de quanta terra estava saindo por hora, porque era preciso não deixar acumular.
Mas ele era um peão como os outros, pegava na pá de vez em quando prá ajudar, não fazia corpo mole.
E era isso que ele estava fazendo naquela quinta feira: recolhendo um monte de terra que o grupo tinha deixado prá trás.
- Ocêis pode ir indo prá frente, que eu dou conta desse montinho! - e o grupo se adiantou uns cinco metros, deixando Baiano sozinho ao lado do monte.
- Coisa boba, em cinco minutos eu faço... Pensava, enquanto assobiava um xote que não sabia o nome, mas sabia a música.
O carrinho já tinha terra pela metade, quando a pá bateu num treco duro.
- Pou! - chegou a fazer um som oco. Baiano se assustou e instintivamente olhou prá frente do túnel. Não, ninguém tinha ouvido, o povo conversava alto e dava risada, e ninguém olhava prá ele.
Como quem arrumava a bota, abaixou-se e procurou saber em que a pá tinha batido. Pedra não era, pedra não fazia barulho daquele jeito. Abaixando o queixo em direção ao peito, fez com que a luz da lanterna de seu capacete iluminasse o local. Jesus! O coração pareceu saltar pela boca!
- Virge Maria, que que é isso?
Como quem não quer nada, foi afastando a terra solta que cobria a caixa. Com cuidado pegou o objeto por baixo, prá sentir seu peso se seu tamanho.
Ficou de costas para o grupo prá olhar melhor sem que algum companheiro percebesse.
Era uma caixa, sem dúvida, talvez de madeira. Era escura, quase preta, tinha uma espécie de tinta grossa, que quase não descascou com a pazada que ele tinha dado. Aliás, a caixa estava inteirinha, fechada. Avaliou o tamanho: era um pouco maior do que aquelas malinhas chiques que os sujeitos de terno carregam, lá no Viaduto do Chá e nas ruas dos bancos, e que eles chamam de maleta 007, tinha a ver com o tal de James Bond.
Essa era um pouco maior, e não tinha alça, apenas uma espécie de tranca, um tipo de cadeado esquisito.
Disfarçando, pegou o objeto pelos lados. Era um pouco pesado, uns dez quilos. Colocou a caixa em cima da pá e, com muito cuidado, ajeitou a coisa no carrinho de terra.
Mas, por que estava fazendo aquele mistério todo? Por que não chamou seu chefe, pura e simplesmente, e mostrou o achado?
Baiano pensava exatamente isso, quando alguém tocou suas costas.
- Ô Baiano, que que ocê tá fazendo, home?
Por instinto, Baiano despejou a pá de terra que mantinha sobre a caixa, cobriu seu contorno. Fingindo mais susto do que o que sentira, berrou:
- Porra, Sivirino, vai assustar a puta que o pariu! Saco!
- Calma, homem! Que que houve, ocê tava abaixado, parecia meio tonto, vim ver...
- Nada não!... - respirou fundo - disculpe, ô xente, eu me assustei, tava aqui pensando na vida, meio alheado, e com um pouco de dor nos quarto...
Reforçou a última fala soltando a pá - com cuidado - em cima da terra do carrinho, colocando as mãos nos rins e empinando a barriga para frente. Passou o dorso da mão direita na testa.
- Acho que vou dar uma respirada lá fora, tô um pouco zonzo mesmo - aproveitando a deixa involuntária do Sivirino, responsável pela agilização do trabalho dos serventes.
- Vai sim, toma uma água, descansa e volta quando tiver melhor.
- Tá, tô indo, vou só terminar esse carrinho e levar comigo...- disse, pegando a pá.
- Nada disso, homem! - e Sivirino tomou a pá da mão do colega - deixa esse carrinho aí que alguém termina êle prá você. Vai subindo, vai!
Era uma ordem, não dava prá inventar desculpa.
Baiano suspirou, para ganhar tempo.
- É, tá bom... É isso mesmo que eu vou fazer, obrigado.
Deu um tapinha nas costas do colega, despachando-o de volta para o grupo de trabalho. Fez um tipo de alongamento, espichando os dois braços prá cima, com um - Uuhhh!...- de descontração. Com um canto do olho, viu Sivirino ficar de costas e caminhas para a frente do túnel. Flexionou o tronco para a frente - outro alongamento - e pegou um terrão, do tamanho de uma bola de bilhar. Ao passar pelo carrinho, fez - distraidamente - um risco em ziguezague na lateral suja do metal. Sivirino ouviu e voltou-se.
- Vai logo homem, não fica enrolando e volta logo!
- Tá bom, deixo essa prá voces recolherem - brincou Baiano, jogando sua pedra-giz no monte de terra que esperava no chão da escavação.
Já ao ar livre, esperou alguns minutos até que seus olhos se acostumassem com a luz do sol. Correu a vista pela obra, as máquinas, os montes de pedra, o serviço já bem adiantado.
Seu devaneio foi cortado pela chegada do carrinho que havia marcado com seu giz improvisado. Correu até o colega que aguardava o carro.
"Deixa comigo, eu esvazio esse, vai tomar um café! "
Falou tão firme e decidido que o outro deu de ombros, jogou a pá no chão e foi.
Baiano, com cuidado, descobriu a estranha caixa, certificou-se que estava sozinho e meteu a dita cuja em um saco de cimento vazio. Discretamente, carregou o saco para seu alojamento, enfiou tudo embaixo de seu catre, ainda não arrumado desde a manhã. No dia seguinte olharia seu tesouro.
E agora era a hora! Ninguém por perto, vamos ver o que é isso...
- Di repenti é um tesouro, alguma coisa roubada e escondida faz tempo e...
Merda! O tal cadeado estava bem travado, era um tipo diferente dos que ele conhecia. Baiano tinha jeito até prá abrir os cadeados Papaiz, bastava uma porrada bem aplicada... mas aquele troço tava difícil. Foi no cantinho das ferramentas, pegou um pé de cabra pequeno.
- Quero ver agora, seu porra! Vamos ver quem é mais forte!
Segurou a ferramenta com a mão esquerda (o bicho ainda era canhoto) e apoiou a tranca com a direita. Respirou fundo e deu um golpe seco, fazendo alavanca com o pé de cabra.
- Puta que pariu! - jogou tudo no chão - Filha da puta, que merda!
O pé de cabra destravou o cadeado, mas de passagem abriu um talho na palma da mão do Baiano, o sangue esguichou longe.
-Ai, como dói!...- gritou entre dentes, sem saber que estava antecipando um bordão de uma música que faria sucesso muitos anos depois.
Agarrou uma camiseta correndo - Ô merda, é aquela que eu limpei a bunda - jogou no lixo improvisado com saco de cimento.
- Essa sim, tá limpa! - bufou enquanto enrolava a mão ensanguentada em outra camiseta. Puxa vida, era muito sangue, já estava atravessando o pano e manchando de vermelho as letras do "Camargo Correia" estampadas na camiseta .
- Tenho que ir no Pronto Socorro costurar a mão! - e já estava do lado de fora quando voltou correndo para o barraco.
- A caixa! Não pode ficar aqui, ainda mais agora que já estourei o cadeado!
Com dificuldade, ajeitou a caixa misteriosa em uma sacola de pano, colocou o saco nas costas e desembestou pela porta, andando rápido em direçào ao Pronto Socorro do Hospital São Paulo.
fim do capítulo I NO PRÓXIMO CAPÍTULO: BILL PUXOS É INCORPORADO POR QUATRO JOVENS, NO PRONTO SOCORRO DO HOSPITAL SÃO PAULO! AGUARDE EM JANEIRO/ 2000! VOLTA PARA BILL PUXOS HOME PAGE